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segunda-feira, 25 de julho de 2016

CONTO - AMORES EM SEGREDO

Projeto
PAIXÕES CLANDESTINAS
OUTRAS PAIXÕES

Amores em segredo

Quando Nívea chegou a casa, o filho já lá estava a jantar, a cozinheira Antónia tinha-lho preparado.
– Boa tarde, mãe. Vem jantar comigo. – Aclamou Gastão.
– Já vou, mas terá de ser depressa, pois tenho ainda que preparar as aulas de amanhã. – Confessou sentando-se à mesa.
Comeram e depois cada um foi para o seu quarto.
Nívea não podia usar o escritório porque o marido estava lá a escrever os textos para o jornal do dia seguinte.
Normalmente vinha tarde para a cama e já não estavam juntos há muitos meses.
Na manhã seguinte os três voltaram aos seus trabalhos. Nívea foi lecionar Psicologia para a faculdade, Gastão foi para a aula de alemão e Arnaldo para a redação. Ficavam relativamente perto uns dos outros, embora a mãe e o filho ficassem mais perto por estarem ambos na universidade de Coimbra.
Na hora do almoço, Gastão foi almoçar, como sempre, com Cesário, Eliana e Camila. Cesário decidiu declarar se a Camila mesmo na presença dos outros. Ela ficou um pouco espantada com a coragem dele à frente dos restantes e corou sem palavras.
– Dou-te tempo para te mentalizares na minha proposta e te preparares para a tua nova vida… comigo. – Proferiu sorrindo, colocando-lhe uma mão em cima da dela.
Então ela decidiu que iam tentar. Os outros riram.
Nesse instante Cesário olhou para Gastão e incentivou- o:
– Devias fazer o mesmo. A Eliana também me parece ansiosa por um beijo teu.
– Eu! ? Não estou, não. O que eu quero é passar o ano e tirar o curso para um dia ser tradutora.
– Eu também penso assim. – Concordou Gastão. – Somente quero estudar para um dia ser um bom docente de alemão e inglês.
– Tu e ela estão mesmo bem um para o outro. Muito envergonhadinhos.
– Sou quase como tu. Demoraste cinco anos para te declarares. – Proferiu sorrindo, acrescentando de seguida:
– Eu bem sei que gostas dela desde o primeiro ano.
– Pois, – acrescentou Eliana – estás sempre a tentar engatar as das outras turmas… admiro me tu a querê- la e ela querer-te.
– Estás interessada? – Perguntou, espantado.
– Não.
– Eu sou mais corajoso do que ele. O Gastão demorará décadas para se declarar. – E sorriu olhando-o.
– Somente estou a mangar contigo. Nada de stress.
– Para de gozar com ele. – Intrometeu- se Camila. – Se queres namorar comigo não poderás dizer piadas parvas e rebaixar os outros. Porta-te bem. Eles não merecem.
– Ó, Camila fica sempre do meu lado, gosta de tudo aquilo que eu fizer.
No sábado seguinte eles saíram juntos os quatro para irem a um bar, mas à determinada altura o casalinho ausentou-se para um sítio mais calmo para curtir.
Estavam a gostar muito de estar juntos que pensaram em oficializar o namoro brevemente com a família. Voltaram a casa de táxi.
No domingo à tarde, o irmão de Camila, Cláudio, fora à casa de Gastão pedir-lhe um jogo de computador para desanuviar do estudo.
– Tu não tens nada para estudar? – Inquiriu Gastão, admirado.
– Estudo depois. Precisava da ajuda da tua mãe para estudar Psicologia. Ela já me ajudou e eu subi a nota, sem ela não consigo estudar com pachorra.
– Então vai dizer a ela. Minha mãe está no escritório porque o meu pai hoje vai chegar mais tarde.
Ele lembrou-se como era para lá chegar, agradeceu e despediu-se do amigo. Desceu as escadas e bateu na porta do escritório. Nívea sorriu ao vê-lo. Deixou o entrar e perguntou o que queria.
– Queria que me explicasse umas matérias em que tenho dúvidas. – Declarou enquanto fechava a porta atrás de si.
Ela explicou-lhe o que ele não compreendia. Cláudio agradeceu e perguntou quanto custava, mas
ela não quis cobrar porque era um amigo do filho e não era muito.
O jovem gostou do que ouvira, assim como do sorriso dela. Contudo, apenas se levantou da cadeira e baixou a cabeça saindo. Nívea achou-o estranho, mas não falou no assunto.

O estágio da turma de Línguas estava para breve e Gastão sentia-se mais próximo de Eliana. A futura tradutora andava a conquistar corações e o amigo sentia-se ameaçado, pois ela era tão reservada para ele que Gastão ficava com ciúmes, mesmo sem ela dar trela a quem se aproximava mais para conversar ou para pedir apontamentos.
Um dia, a sós, Gastão manifestou os seus sentimentos:
– Eu queria que os dias de faculdade não acabassem. Bem, estou a mentir. – Declarou embaraçado. – Eu queria era que os momentos que nós temos juntos não terminassem. E tu?
– Eu também gosto muito da tua companhia. Nunca te esqueças que moramos na mesma cidade e que ficaremos para sempre amigos.
– Parecia que me conhecias tão bem e afinal ainda não percebeste o que queria dizer.
– Percebi. Deixa essa poeira baixar. Os ânimos estão exaltados por causa do final do curso, mas não significa mais nada.
– Queres enganar a ti própria? Tens vergonha de mim? Crescemos praticamente juntos, sabes quais as minhas intenções.
– Pois, é por isso. Não se confunde amizade com amor.
– Não queres arriscar um beijo? Ninguém está a ver. – E olhou à volta, fazendo a olhar também.
– Agora não. Não estou preparada para isso, não sei bem por quê. Deve ser por causa da reviravolta universitária.
– Não insisto. Porém, sabes que devíamos tentar.
– Agora só quero acabar este estágio e começar a trabalhar. Quando isso acontecer logo se vê. Até lá, falamos normalmente.
– Aceito. – Retorquiu ele.
Cláudio já arranjara uma namorada, Bianca, estudante de enfermagem, como ele. Curtira com ela, mas achava que não gostava o suficiente. Ela não parecia muito interessada, depois só queria estudar sozinha e falava pouco na curtição.
– Assim não tem graça. Gostava de estudar contigo.
– Gostava mais quando eras somente amigo.
– Ok, afasto-me. Eu também estudo bem sozinho.
Cláudio ficou triste, não conseguira ficar mais de um mês com a rapariga e gostava dela a sério. Pensava noutras colegas, mas elas não mostravam muito interesse, queria apenas estudar e tirar altas notas. Ele já estava farto daquela vida de estudante e ainda tinha mais um ano. As professoras achavam-no um menino e não lhe davam muita trela. Tinha que arranjar alguém de
fora. Mas quem?

Nas férias de Verão, Nívea foi para a praia com o filho e duas amigas, a Eduarda levou os filhos Cláudio e Camila e a Gertrudes, a filha Eliana.
Cláudio, Camila e Gastão prepararam-se logo para jogar futebol na areia junto ao Cesário, que lá estava.
Eliana ficou deitada numa toalha a ler um livro de novela de época, junto de sua mãe Gertrudes e das outras mulheres.
A bola ia algumas vezes para perto das senhoras que eram muito apreciadas pelos homens nos seus fatos de banho ou biquínis! Quase todos os dias de verão foram à praia juntos.

As aulas universitárias voltaram e com elas novos estudos, novas alegrias e tristezas, novos romances, sonhos, planos, amigos e novas noitadas. Era o ano do estágio de Cláudio. Correu bem, no geral, tentou concentrar-se mais e melhores notas positivas apareceram, terminando o curso com média de quinze valores.
Gastão e Eliana já estavam a namorar e a trabalhar.
Cesário e Camila também já tinham um emprego e o casamento marcado. Nívea dava as suas aulas de
Psicologia como sempre.
A meio do ano letivo começou a desconfiar que o marido andava a enganá-la porque ele saía da redação e não voltava direto para casa. A primeira vez ficou muito preocupada se lhe tinha acontecido alguma coisa. Ele nunca fazia isso! Sempre que tinha algum compromisso importante avisava-a antes. Porém, Arnaldo estava estranho, já não falava muito com ela, já não era
romântico, dormiam apenas e não havia carinhos.
Um dia ligou para a redação a perguntar se ele vinha já a casa. Ele disse que tinha um compromisso. Ela não gostou do seu tom de voz e resolveu ir até ao seu trabalho. Ficou no carro à espera de ele sair e seguiu-o.
Onde iria ele às dez horas da noite!
Ainda em Coimbra, ele estacionara na berma da estrada, perto dum restaurante novo. Entrou no edifício e a esposa foi atrás pouco depois. Viu-o lá sentado à mesa com uma loura! Sentou-se noutra mesa afastada e pediu um café quando o garçom a abordou. Olhou-os de soslaio e verificou que já estavam muito íntimos. Ficou triste, quase chorou.
“Mas eu estou longe, pode não ser o que parece”, pensou.
Então resolveu pedir ao empregado de mesa, dando-lhe uma gorjeta:
– Poderia fazer-me o favor de perguntar àquele casal o que são um ao outro?
– Com certeza, minha senhora.
Ele foi lá e quando voltou disse a Nívea:
– Eles são casados. O que deseja mais?
– Nada. Obrigada. – E saiu com as lágrimas nos olhos.
Voltou para casa e ligou logo para Gertrudes, que era advogada, para tratar do divórcio.
– Tens a certeza de que é isso que queres?
– Claro. Não suporto traições.
– Devias falar com ele primeiro. O Arnaldo precisa concordar. Se for amigável é mais fácil, embora ainda demore algum tempo.
Na manhã seguinte, na cozinha, ela confrontou o marido sobre uma amante, mentindo:
– Já sei o teu segredo. Ela ligou para mim a contar tudo o que há entre vocês.
– Não sei do que estás a falar. – Balbuciou denteando um pedaço de pão.
– Já sei que tens uma amante há algum tempo e que há promessas de amor futuro.
– Não é possível.
– Quero o divórcio. – Declarou com prontidão, colocando as mãos em cima da mesa.
– Por acaso tu tens algum e queres que eu também tenha?
– Não mudes a conversa. – Protestou, intimando – Eu sei mais do que tu pensas.
– Estou tão bem aqui contigo e com o Gastão. – Disse ele, levantando-se da mesa enquanto bebia o café, resmungando. – Mas eu quero a minha liberdade.
– Assim não. Fica com ela e eu vou-me embora daqui.
– Não faças isso. – E olhou a, depois de abandonar a chávena no lava-louças. – Para que gastar dinheiro com advogados? Estamos bem assim…
– Nós já não temos uma relação, parecemos uns estranhos, nem falamos, apenas trabalho e mais trabalho.
Ele pegou -lhe nas mãos e perguntou:
– Que queres que façamos para inovar o nosso relacionamento?
– Nada. – E baixou os olhos afastando-se. – Eu sei que tu estiveste com uma mulher num restaurante e tiveste a lata de a apresentar como tua esposa. Se queres esse título para ela então deixa-me, vai com ela, não me enganes. – E começou a chorar sentando-se na cadeira da
cozinha.
– Andaste a seguir -me? Já não confias em mim? – Gritou desiludido. – Detesto que me vigiem. Parece que já não és a mesma. Agora queres controlar-me todos os passos!
– Não é isso. Somente quero mais atenção.
– Eu tenho o trabalho. Foi com uma amiga da redação que eu jantei.
– Pois, é sempre isso que dizes: amigas e colegas de trabalho, mas afinal tens uma amante.
– Então queres mesmo acabar?
– Sim. Já falei com a Gertrudes e ela vai tratar de tudo, falta o teu consentimento.
– Está bem. Se é assim que queres, assim será.
– Porque não admites que tens outra?
– Ainda me custa acreditar que isso me tenha acontecido. Mas me apaixonei mesmo por uma colega de
trabalho. Ela chegou lá há pouco tempo e cativou-me.
– Podes calar-te. Vai-te embora. – Ordenou exaltada sem o olhar.
– Eu ainda não tive sexo com ela. – Confessou.
– Ai não! Por quê?
– Porque ainda não chegamos a essa parte. Não tenho amante, no fundo.
– Então por que disseste que era a tua mulher? – Confrontou-o.
– Porque estou a gostar mais dela do que de ti. Pensei, de fato, em te trocar, mas ainda não tinha bem a certeza. Estás a ajudar -me a decidir. – E sorriu andando para a sala.
– Então isso quer dizer que vamo-nos divorciar? – Bradou.
– Sim e vou tentar ser mais feliz com ela. – Proclamou aproximando-se da porta de saída,
despedindo-se.
Ela ficou triste, mas desta vez não chorou, pensou em arranjar também alguém, mas será que queria outra pessoa para a fazer sofrer?

No outro dia ela voltou para casa dos seus pais e Gastão ficou com o pai naquela casa em que o viu nascer. Quando foi para a praia contou também às amigas o que lhe sucedera. Eduarda ficou espantada:
– Pareciam um casal tão amigo!
– Mas ele já se cansou de mim. – Desabafou, voltando- se depois para a Gertrudes, informando: – Vê se tratas do divórcio depressa que quero que esse assunto acabe.
– Vou tentar dar prioridade ao teu processo, mas tenho outros mais antigos.
– Mas eu sou a tua amiga, tenho prioridade. Eu pago bem.
– Sim. Vou dar prioridade ao teu.
Nívea gostava de ver os rapazes a jogar futebol. O Cláudio jogava melhor que o filho, parecia mesmo um jogador profissional. Mas o Gastão era melhor que o da outra em muitas matérias da escola. Ela estava orgulhosa do filho por lhe seguir as pisadas, apesar de não lecionar
a sua disciplina, era professor de inglês e alemão.
Uma tarde de verão, na bolsa de praia dela, apareceu um bilhete em letras garrafais:

ESTOU APAIXONADO E ANDO À PROCURA DE
PARCEIRA.
GOSTARIA DE A VER A SÓS HOJE ÀS 21H NESTA
PRAIA.
UM ADMIRADOR SECRETO

Ela viu o bilhete ao chegar a casa e remexer na mala, sorriu ao lê -lo. Adorou a ideia de ter um admirador secreto e depois de um banho e do jantar, não hesitou em ir, merecia alguém. Disse aos pais, que viam televisão:
– Vou dar uma volta para espairecer. Não se preocupem que eu volto antes da meia- noite. – E sorriu.
– Sim, filha. – Responderam ambos sorridentes.
Ela foi de carro até ao local combinado. Não estava frio e ainda não escurecera totalmente e havia candeeiros públicos por perto. Ao chegar lá, antes de chegar à areia, ao lado de uns bancos, reparou que havia um homem de pé, voltado de costas, com um chapéu preto, uma t-shirt
branca e uns calções de ganga preta a combinar com os chinelos. Pareceu-lhe familiar aquela estatura. Ele voltou-se ao sentir os passos dela e achegou-se mais. Também tinha óculos tal como ela.
– Quem és tu? – Perguntou corajosamente.
Ele acercou-se e estendeu o braço para lhe dar a rosa, informando:
– O seu admirador secreto. Se não fosse assim não tinha graça. – Acrescentou, entregando-lhe a flor.
Ela ficou surpreendidíssima quando pegou na flor e se apercebeu de quem se tratava. Ele olhou a de cima a baixo, averiguando a sua saia xadrez e a sua blusa branca, lisonjeando:
– Está muito bonita.
Ela agradeceu um pouco embaraçada, confessando depois:
– Nunca pensei que fosses tu.
– Não tive coragem de lho dizer pessoalmente, mas gostaria de me envolver consigo.
– Estás louco! ?
– Já ando há algum tempo a gostar de si. Já tive com outras, mas depois penso sempre em si.
– Eu tenho a idade da tua mãe e sou amiga dela, sou mãe de um rapaz da tua idade que é teu amigo e da tua irmã, nós… – e movimentou a mão em desacordo – não podemos, não faz sentido. – E, dito isso, voltou-se.
– Espere. Não saia assim. – Ordenou suavemente agarrando-lhe o pulso direito. – É por ser assim tão chegada que me fui apaixonando.
Quando ela o olhou ele retirou o chapéu e pôs na cabeça dela para brincar e fazê-la rir. O que, de fato, aconteceu. E rapidamente tirou do bolso dos calções uma máquina digital e tirou-lhe uma foto.
– Faça uma pose.
Como ninguém estava a ver ela deixou-se levar e colocou as mãos na cintura. Cláudio estava a gostar cada vez mais dela.
– Dê uma volta.
Ela virou-se de costas e voltou o rosto. Tiraram mais algumas fotos e a seguir ambos se dirigiram até um banco que estava perto. Ficaram lá sentados a ver as estrelas e o mar.
Nívea pensou:
“Foi bom ter vindo. Sinto- me mais jovem, mais amada.”
– Queres dizer-me alguma coisa? – Inquiriu ele.
– Fala tu.
– Que pensou do meu bilhete?
– Gostei de o receber, depois da decepção com o meu marido, era disso que estava a precisar. Somente pensei que era alguém para a minha idade.
– Você deixa-me muito excitado.
Ela baixou a cabeça sem saber o que dizer. A noite estava quente e ela não tinha frio nos braços nem nas pernas.
A seguir Cláudio propôs-lhe:
– Quer ir até a um bar comigo?
Ela encarou-o com um olhar de quem não acreditava no que estava a ouvir.
– Tu, afinal, queres mesmo um relacionamento?
– O meu bilhete foi bem claro.
– Não é adequado o nosso envolvimento.
– Bem… Mas você é divorciada.
– Mesmo assim, a diferença de idade é muita.
– Estiquei-me. – Respondeu atrapalhado. – Então falemos de qualquer coisa. Eu espero o tempo que for preciso.
– Não é questão de tempo… Tens de me esquecer.
– Não faça isso.
– Eu quero encontrar alguém, não nego, mas da minha idade.
– Gosta de que tipo de música?
Pensou em não responder e ir embora, mas depois disse:
– Não sou muito exigente, ouço qualquer coisa. Mas essencialmente pop e baladas.
– O meu favorito é pop/rock. Vamo-nos dar bem, certamente. – E sorriu aproximando-se mais.
– Não insistas.
– Diz que não pode, mas não diz que não quer.
– Porque me falas assim? Vou dizer à tua mãe. – Brincou seriamente.
– Diga, pode ser que não se zangue, já que é sua amiga.
– Nem pensar. Não quero perder a sua amizade.
– E a sessão de fotos? Não teve valor?
– Tenho de ir. – E levantou-se. – Já passam das dez.
Ele levantou-se também e foi até ela, roubando-lhe um beijo. Ela excitou-se e lembrou-se do seu marido. Há tanto tempo que não tinha um beijo e um carinho!
– Porque não me afastou?
– Não sei. – Balbuciou baixando a cabeça indo em direção ao carro.
Cláudio foi atrás dela e gritou-lhe:
– Toma o meu número de telemóvel?
Ela ignorou e abriu o carro.
– Vou-te dizer coisas que já não estás habituada a ouvir.
Olhou-o e sorrindo atirou-lhe as palavras:
– Sério! Quais? As da idade da pedra?
Ele estacou a sua caminhada até ao seu carro e riu à socapa.
– Procura alguém da tua idade. – Aconselhou entrando no carro.
– Pois, talvez ainda não saibam tais coisas. Porém, quero dizê-lo a si. – E chegou perto do carro dela.
Ela ignorou-o e arrancou com o veículo. Ele não insistiu, entrou no seu carro e abalou atrás dela. Depois teve uma ideia estapafúrdia e acelerou até cento e vinte quilómetros e
ultrapassou-a, atravessando o carro na estrada mais à frente. Ela travou assustada.
Cláudio veio até ao carro dela e Nívea não parava de rir.
– Parece que gostas mesmo muito de mim. – Deixou escapar.
– Dê-me o seu número de telemóvel ou e mail.
– Eu vou-te dar que é para ver se chego a casa, mas não esperes que te envie alguma coisa.
– Vou lutar até ao fim por si.
Trocaram os números e ele enviava-lhe quase todas as noites mensagens de bons sonhos e Nívea nunca respondia.

No início de outro ano letivo, Nívea mudara-se para um apartamento em Coimbra, dizia aos pais que não queria estar longe da universidade, mas no fundo o que ela queria era independência e esquecer que o seu casamento fracassara e que voltara para a casa de solteira. Além disso, ela esperava ocultamente que o seu admirador secreto voltasse e que fosse morar com ela.
Quando pensava em Cláudio e na cena da praia sentia-se uma adolescente. Nunca teve coragem de contar a quem tinha confiança o que se estava a passar consigo. Nem o próprio Cláudio sabia da sua mudança de sentimentos. Não conseguira apagar o número dele do telemóvel, nem as mensagens, nem o e mail, nem a sessão de fotos, da sua memória.

O novo verão na praia fora triste, não se sentia à vontade com as amigas para falar do admirador secreto. Não lhe apetecia ver os rapazes jogar. Pensou em ir nadar e lá ficar, mas não podia fazer isso, o seu filho não merecia. Então num ato brusco tirou o telemóvel e enviou uma mensagem ao admirador secreto. Será que ainda o era?! As amigas estavam deitadas na areia e nem se apercebiam do que ela fizera. Cláudio demorou para ver a sms. Ela resolveu ler um livro deitada na areia como as outras.
Já tinha chegado ao carro com o Gastão quando sentiu o sinal de mensagem, mas ignorou, embora tivesse a curiosidade à flor da pele. Quando chegou a casa deixou o filho ir ao wc primeiro e foi ver a mensagem do telemóvel.
– Nunca pensei que fosse esperar tanto tempo para se decidir a aturar-me. Encontro na praia às 21h. Bjs.
Desta vez o casal ficou sentado num banco a conversar. Pareciam dois amigos. Ela confessou:
– Eu estou arrependida, um pouco, de te ter enviado a tal mensagem, mas como estou sozinha no apartamento lembrei-me de nós o ano passado na praia.
– Não precisas dizer mais nada. – Concluiu Cláudio achegando-se para ela, beijando-a com ternura.
A conversa tomara um novo rumo, ele excitadíssimo mostrou-lhe o quanto era homem. Ela ficou envergonhada.
– Falemos de nós: então queres ficar mais tempo com os encontros na praia?
– Sim. É um local tão bonito e aconteceu-nos coisas tão românticas aqui. – E sorriu.
– Vem comigo. – Pediu erguendo-se do banco e levando-a pela mão para a areia.
– Para onde me levas? – Perguntou com um ligeiro sorriso, entusiasmada com a ideia de estar com ele na praia.
– Que tal o jogo do apanha na praia? – Propôs.
– Já fizeste isso com alguém?
– Sim. Mas contigo será especial. – E abraçou-a, antes de fugir para ela o apanhar.
– Não corras tanto, senão não consigo.
Ele parou e ela afastou-se, dando uns passos atrás, afastando-se para um lado e para o outro sorridente.
– Surpreendes-me! – Exclamou sem a apanhar.
Ela gostou da brincadeira, mas deixou-se apanhar. Parecia cena tirada de novela! Com o marido nunca houvera semelhante coisa. Depois desse jogo ambos pensaram em dar um mergulho.
– É pena somente virmos para aqui de noite. – Lamentou ele.
Ela concordou.
– Gostaria de nadar contigo. E se nos aventurássemos? – Sugeriu aproximando-se da água,
querendo levá-la também.
– A água deve estar fria. É melhor não. – Replicou Nívea, recuando.
– Olha, eu vou entrar. – Informou Cláudio deixando os chinelos na areia e despindo a camisa.
Ela baixou a cabeça para não o ver em tronco nu. Ele desafiou-a:
– Não queres ir comigo? – E estendeu-lhe uma mão.
– É melhor ficar aqui. Vai tu. – Concluiu cruzando os braços.
– Prometes que não te vais embora?
– Prometo.
Então ele tirou os calções de ganga e correu para o mar. Nívea ficou a vê-lo e achou-se tonta por estar ali na praia àquelas horas com um rapaz mais novo que o filho.
Pensou em ir embora, mas algo a prendia àquele sítio. Como poderia ser pecado ser feliz?! Estava a ter uma das melhores noites!
Seus encontros foram cada vez mais frequentes e deliciosos. Ele fora para o apartamento dela durante uns dias e tinha a cópia da chave. Mentira à família dizendo que ia para casa duma ex- colega com quem namorava.
– Não gosto nada de esconder coisas à tua mãe. Ela não me vai perdoar de eu andar contigo.
– Ela não tem de te perdoar de nada, estarmos juntos é bom, é justo sentirmo nos bem. – E abraçou-a.
– Mesmo assim não vou arriscar contar a alguém. Como consegues mentir e não sentir remorso?
– Não faço nada de mal. Fazer te feliz é mau? – Sondou, beijando-a em seguida.
– Claro que não. Se pudéssemos contar a todos ia ser tão bom! – Desabafou com ar sonhador.
– Pois era, mas iam todos ficar escandalizados.
– É verdade, o meu pai de certeza que lhe daria um ataque e a minha mãe ia ficar muito desiludida. A tua família nunca mais me falaria, esperam que te cases como a Camila com uma da tua idade e eu sou uma divorciada da idade da tua mãe. – Lamentou com as lágrimas nos olhos.
Ele enxugou-as suplicando:
– Não chores, parte-me o coração. Estás comigo, tens de estar alegre. – E beijou-a com muito carinho para que ela se excitasse e se esquecesse da tristeza.
De vez em quando, Cláudio fazia-lhe surpresas. Já lhe dera um anel prateado que servira para marcar o dia em que o admirador secreto apareceu. Cantava karaoke para ela, assim como ela para ele. Dava-lhe rosas, comprava frutos afrodisíacos, champanhe, espalhava rosas pelo quarto e acendia velas de cores diferentes cada dia. Ela comprara pizza para comerem, de outras vezes galinha e outros alimentos para preparar jantares deliciosos para ambos.
Muitas vezes parecia que o resto do mundo não existia e que eram apenas eles a habitar o planeta, como se o mundo fosse o apartamento.
Uma noite foram a uma discoteca na cidade do Porto juntos. Adoraram parecer um casal à frente das outras pessoas e saírem do seu lugarejo! Mas mantiveram sempre segredo da sua relação para não fazerem sofrer entes queridos.

Lénia Aguiar
2015